Adriana Nunes Wolffenbuttel: “Precisamos produzir evidências com aplicabilidade real”
Após uma sólida trajetória dentro do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN), desde a sua fundação, a doutora em Ciências Farmacêuticas Adriana Nunes Wolffenbuttel tomou posse como nova diretora executiva da instituição para o biênio 2026-2027, durante a Assembleia Geral Extraordinária, realizada no dia 11 de março de 2026. Sua chegada compõe uma diretoria ampliada do CABSIN, agora formada também por Marcelo Demarzo e Fabiana Frickmann, que se somam a Caio Portella e Ricardo Ghelman, já diretores da entidade.
Reconhecida internacionalmente por sua atuação como aromaterapeuta no atendimento a vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul (2024), Adriana traz para a diretoria a experiência da aplicação prática dessa abordagem terapêutica em contextos de emergência. Entre seus planos para os dois anos de mandato, destacam-se a contribuição para o fortalecimento das formações em Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI) com base em evidências, e para a ampliação do impacto das práticas integrativas na vida da população brasileira.
Trajetória e Reconhecimento Internacional
Adriana Wolffenbuttel é bacharel em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com doutorado e pós-doutorado em Ciências Farmacêuticas com período de formação na Espanha, e especializações em Toxicologia e em Óleos Essenciais. Aromaterapeuta clínica desde 2003, é certificada pela Associação Brasileira de Aromaterapia e Aromatologia (ABRAROMA), como Aromaterapeuta CertAroma. Iniciou seus estudos na área em 2000 e construiu uma trajetória marcada pelo rigor científico e pela integração entre pesquisa e prática clínica. É autora do livro Base da Química dos Óleos Essenciais e Aromaterapia (3ª edição, Editora Laszlo), referência na área, e atua como docente em cursos de pós-graduação e formação em aromaterapia, incluindo capacitações voltadas a profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS).
Sua produção e atuação foram reconhecidas internacionalmente com o Prêmio de Inovação em Protocolo de Aromaterapia, concedido pela Fondation Gattefossé, na França, em 2024.
Atuação no CABSIN e Entrevista
No âmbito do CABSIN, além de integrar a nova diretoria a partir de agora, Adriana é coordenadora técnica do Mapa de Evidências da Efetividade Clínica da Aromaterapia, desenvolvido em parceria com a BIREME/OPAS/OMS, e coordenadora do Comitê de Produtos Naturais. Também é membro do Comitê de Saúde e Natureza, membro do projeto Validação Farmacológica das Plantas Medicinais, e membro do Comitê do Compêndio Pan-americano de Plantas Medicinais.
Confira a entrevista que Adriana N. Wolffenbuttel concedeu ao CABSIN:
O que significa, para você, integrar a diretoria do CABSIN neste momento da trajetória da instituição?
Faço parte do Consórcio há praticamente seis anos, desde a sua fundação, e vejo este momento atual como o mais importante para a entidade, desde então. Após o 3º Congresso Mundial de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa, copresidido pelo CABSIN em outubro de 2025, no Rio de Janeiro, a instituição ganhou bastante evidência, tanto em âmbito nacional como internacional, o que trouxe muitas novas demandas. Integrar a diretoria do Consórcio e poder contribuir para responder aos desafios dessa nova realidade, representa para mim, muita responsabilidade e dedicação.
Prioridades e Cenários de Crise
Na sua visão, quais são hoje as principais prioridades para ampliar a relevância científica e institucional das MTCI no Brasil?
Penso que uma das prioridades é aprimorar a formação dos profissionais de saúde. Vemos, hoje, muitos profissionais se formando em suas graduações universitárias sem conhecimento e buscando especializações. Isso é bom, porque algumas especializações já estão sendo homologadas pelo Ministério da Educação (MEC). Entretanto, incluir disciplinas obrigatórias sobre evidências clínicas em MTCI nos currículos dos cursos, principalmente nos da área de saúde, é uma prioridade. Já existe um amplo conhecimento científico sobre essa efetividade clínica que a maioria dos profissionais ainda não têm acesso.
Seu trabalho recente ajuda a ampliar o debate sobre o lugar da aromaterapia em cenários de crise e emergência, ainda pouco reconhecido no campo da saúde. O que falta para iniciativas como essa conquistarem maior legitimidade técnica e institucional?
Precisamos criar protocolos de assistência para atendimento à população em cenários de crise e de emergência. Paralelamente, a MTCI precisa estar dentro desses protocolos como parte de uma ação institucional, como aconteceu no Rio Grande do Sul, que uniu o governo do estado (Política Estadual de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde – PEPICS, da Secretaria da Saúde do Rio de Grande do Sul) e a universidade federal (Programa de Extensão Universitária SUStentaPICS, da Escola de Enfermagem da UFRGS). Embora tenham sido realizadas ações voluntárias em todas as cidades, abrangendo várias práticas integrativas, a mobilização institucional foi muito importante porque trouxe visibilidade e a possibilidade de atender a um número maior de pessoas. Eu, por exemplo, atendi quatro estabelecimentos, sendo um ginásio repleto de famílias.
Aprendizados e Redes de Cooperação
Que aprendizados dessa experiência você leva para sua atuação na diretoria?
A experiência com aromaterapia em contexto de emergência trouxe aprendizados que vão além do estudo em si. Trouxe a importância de produzirmos evidências com aplicabilidade real; pensarmos intervenções seguras, viáveis e replicáveis; considerarmos contextos de vulnerabilidade nas prioridades institucionais; e de aproximarmos ciência, cuidado e implementação em políticas e serviços. Como diretora, isso pode se refletir em decisões mais conectadas ao impacto concreto da MTCI na vida das pessoas.
A experiência no Rio Grande do Sul também mostrou a importância da articulação entre voluntariado, universidade e gestão pública. Pode nos falar um pouco sobre a força das redes de cooperação em contextos de emergência ligados às tragédias climáticas?
A rede de cooperação é primordial, desde que ela seja eficiente, como foi no Rio Grande do Sul, pois essa articulação possibilitou que os voluntários tivessem, imediatamente, acesso às pessoas atingidas pela enchente. Muitas vezes, quando o Estado acolhe esses cidadãos, adota-se uma cautela legítima em relação a quem se aproxima dessas pessoas e de suas famílias, já fragilizadas pela tragédia. No Rio Grande do Sul, tanto a universidade como o próprio governo do Estado tiveram o cuidado de fazer o chamamento e solicitar os documentos dos voluntários para comprovar a capacidade de atuarem nas práticas integrativas. Então, essa dinâmica fez toda a diferença e funcionou muito bem.
Contribuições e Mensagem Final
Que contribuição você espera deixar na diretoria nesses dois anos?
A diretoria ampliada traz três novos diretores executivos, tornando possível aumentar a divisão das tarefas e trabalhar em conjunto para que ninguém se sinta sobrecarregado. Meu desejo é colaborar com os demais, auxiliando no que for preciso para o crescimento do CABSIN e o reconhecimento cada vez maior das práticas integrativas.
Gostaria de deixar uma mensagem para os afiliados, pesquisadores e parceiros que acompanham o trabalho do CABSIN?
A mensagem que deixo para afiliados, pesquisadores e parceiros do CABSIN é que estamos efetivamente trabalhando para que a MTCI seja cada vez mais reconhecida e alcance a população por meio das instituições. Sabemos que, em todo o mundo, a MTCI integra saberes ancestrais, mas, nos centros urbanos, ainda não faz parte da realidade da maior parte dos indivíduos, justamente onde muitos deles adoecem em razão da rotina das grandes cidades e poderiam se beneficiar dessas práticas. Que possamos, portanto, ampliar a visibilidade da eficácia da MTCI e favorecer sua presença em todos os municípios brasileiros, para beneficiar um número cada vez maior de pessoas.


