Pesquisa inédita aponta Viscum album como potencial aliado no tratamento da hipertensão
Uma pesquisa publicada na revista científica Frontiers in Physiology, de uma das maiores editoras de acesso aberto do mundo, traz novas evidências sobre os mecanismos de ação das tinturas-mãe de Viscum album no tratamento da hipertensão arterial. Esta condição é uma das principais causas de morte prematura e está associada a doenças do coração, do cérebro e dos rins, afetando cerca de um terço dos adultos de 30 a 79 anos no mundo (1,4 bilhão de pessoas), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Viscum album, conhecido popularmente como visco ou, em inglês, mistletoe, é uma planta semiparasita (que cresce associada a diferentes árvores) com longa tradição de uso na medicina integrativa, especialmente na Europa e, nos últimos 100 anos, com aplicação mais focada em oncologia. Já a indicação do Viscum album para doenças cardiovasculares está presente na tradição de uso da planta desde a antiguidade. As tinturas, por sua vez, são preparações obtidas a partir da extração da planta fresca em solução hidroalcoólica, seguindo protocolos que garantem a preservação de seus compostos bioativos.
Rodrigo Duarte, mestre em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é o primeiro autor do estudo, desenvolvido a partir de pesquisa de mestrado orientada pela professora Carla Holandino, membro dos Comitês de Produtos Naturais e de Homeopatia do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN) e também é autora do artigo intitulado Viscum album L. mother tinctures modulate Na+/K+ ATPase activity and expression, and promote endothelium-dependent vasodilation via SK channel and nitric oxide signalling (Tinturas-mãe de Viscum album L. modulam a atividade e a expressão da Na+/K+ ATPase e promovem a vasodilatação dependente do endotélio por meio do canal SK e da sinalização do óxido nítrico).
O estudo é resultado de uma ampla colaboração científica envolvendo instituições brasileiras e internacionais: a UFRJ, a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD-MS), a Universidade de Witten/Herdecke (Alemanha), e o Centro de Medicina Complementar e Integrativa da Universidade de Berna (Suíça).
Evidência Inédita sobre Mecanismos Celulares
A pesquisa é inédita no Brasil e no mundo ao investigar como as tinturas-mãe de Viscum album atuam em nível celular, elucidando seus efeitos sobre a enzima Na+/K+ATPase (essencial para o controle da pressão arterial) e sobre a vasodilatação relacionada ao endotélio, camada interna que reveste os vasos sanguíneos. Os resultados mostram que determinadas preparações da planta conseguem reduzir a ação da enzima e favorecer a vasodilatação por meio de mecanismos que participam desse processo (óxido nítrico e canais de potássio).
Além disso, o estudo indica que estes preparados não causaram danos às células dos rins nem provocaram desequilíbrios associados ao desgaste celular, o que reforça indicadores de segurança para uso terapêutico. Outro avanço importante é a identificação de que diferentes preparações da planta apresentam perfis farmacológicos distintos: enquanto algumas atuam diretamente sobre a enzima Na+/K+ ATPase, outras influenciam outros mecanismos no organismo, e de acordo com a sua sazonalidade. Isso sugere que os efeitos da planta podem variar conforme a estação do ano e a forma como o extrato é preparado.
Em modelos de hipertensão, os experimentos também mostram que preparações específicas da planta promovem vasodilatação, com efeito associado à redução da pressão arterial. O estudo traz ainda o achado relevante de que a composição e a eficácia das tinturas variam conforme a árvore em que a planta cresce e a época do ano em que é coletada. Isso indica que fatores ambientais influenciam de forma importante seu potencial terapêutico.
A pesquisa utilizou modelos in vitro (com culturas de células) e ex vivo (com tecidos isolados e analisados fora do organismo, como o leito mesentérico de animais hipertensos). Os resultados desses estudos pré-clínicos ainda não podem ser aplicados diretamente ao uso em pacientes, pois antes disso são necessários estudos pré-clínicos em animais e estudos clínicos em seres humanos. No entanto, os achados atuais já são considerados suficientes para estimular essa próxima fase, prevista para o segundo semestre de 2026 após novos ensaios. A etapa final será o estudo em seres humanos, quando doses das tinturas-mãe poderão ser avaliadas com acompanhamento de parâmetros clínicos.
Abordagem Integrativa e Inovação Terapêutica
Para a professora Carla Holandino, os resultados representam um avanço significativo para a consolidação científica das práticas integrativas no cuidado cardiovascular:
“Pela primeira vez mostramos como as tinturas-mãe atuam em modelos celulares, o que abre perspectivas importantes para essa terapêutica. Estamos falando de uma possibilidade de tratamento com substâncias naturais menos agressivas, que podem contribuir para o cuidado de pacientes com hipertensão, uma condição crônica de grande impacto em saúde pública.”
Segundo a pesquisadora, embora existam diversos medicamentos para o controle da hipertensão, muitos estão associados a efeitos adversos. Sendo assim, o uso de produtos de origem vegetal, com perfil potencialmente mais seguro, amplia as possibilidades terapêuticas dentro de uma abordagem integrativa e centrada no paciente.
Colaboração Científica Internacional
A investigação teve origem na dissertação de mestrado desenvolvida na UFRJ, sob a orientação dos professores Carla Holandino e Marcelo Einicker-Lamas e contou com a participação do professor Arquimedes Gasparotto Junior, da UFGD-MS, responsável pelos estudos com modelos animais. No campo internacional, a parceria com o professor Stephan Baumgartner, da Universidade de Witten/Herdecke (Alemanha) e do Centro de Medicina Complementar e Integrativa da Universidade de Berna (Suíça), foi fundamental, segundo Holandino, para o acesso ao material vegetal europeu e para o aprofundamento das análises farmacológicas.
De acordo com a orientadora e coautora do artigo, essa articulação reforça o protagonismo da ciência brasileira na produção de evidências em saúde integrativa, além de reafirmar a importância da união entre diferentes expertises e contextos acadêmicos para o avanço das pesquisas em Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI).
Conheça a Orientadora do Estudo
Carla Holandino é farmacêutica formada pela UFRJ, onde também concluiu o mestrado em Biofísica e o doutorado em Ciências pelo Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho. É professora titular da Faculdade de Farmácia da UFRJ desde 2018, e bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Especialista em Homeopatia, desenvolve pesquisas voltadas à interface entre produtos naturais, sistemas dinamizados e câncer, com atuação internacional destacada junto à Society for Cancer Research, na Suíça, com quem tem parceria desde 2016 para o desenvolvimento de projetos colaborativos com esta e outras instituições suíças, como a Universidade de Berna e a Universidade de Basel.
Holandino foi a primeira coordenadora do Comitê de Produtos Naturais do CABSIN e hoje é membro ativo tanto deste comitê como do Comitê de Homeopatia.
Com ampla experiência em ensino, pesquisa e formação de recursos humanos, é coordenadora de laboratórios estratégicos na área de Ciências Farmacêuticas e Práticas Integrativas, além de atuar na graduação e pós-graduação da UFRJ, onde já orientou mais de 140 alunos em diferentes níveis. Sua trajetória inclui participação relevante na Farmacopeia Brasileira, como coautora do Formulário Homeopático da Farmacopeia Brasileira e da 3ª Edição da Farmacopeia Homeopática Brasileira. Participa também de comitês técnicos científicos e profissionais, contribuindo para o avanço científico e regulatório da área.
No âmbito institucional, integrou a diretoria de relações internacionais da Faculdade de Farmácia da UFRJ e presidiu o Grupo Internacional de Pesquisa em Infinitesimais (GIRI). Atualmente, é membro de entidades científicas nacionais e internacionais, como o Instituto Hahnemanniano do Brasil e a Liga Medicorum Homeopathica Internationalis, fortalecendo a integração entre ciência, inovação e práticas integrativas em saúde.


