Conhecimento em saúde, equidade e saberes tradicionais

O acesso ao conhecimento em saúde sempre foi estratégico para a equidade entre países e sistemas de cuidado e, no contexto da Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI), ele se torna ainda mais essencial diante da diversidade de saberes envolvidos, de suas trajetórias históricas desiguais de reconhecimento e dos desafios para garantir legitimidade, circulação e uso responsável dessas informações.

Essas reflexões estiveram no centro da fala de João Paulo Souza, diretor do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME-OPAS/OMS), durante a Segunda Cúpula Global de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde, realizada de 17 a 19 de dezembro de 2025, em Nova Délhi, na Índia. Como um dos speakers da Sessão Paralela 1 A – “Medicina Tradicional e a continuidade do conhecimento em saúde” (Traditional Medicine and the continuum of knowledge in health) – ele propôs um deslocamento do debate técnico para um campo ético, cultural e político, ao discutir como o conhecimento em saúde é produzido, transmitido e legitimado ao longo do tempo. Assista aqui: tm-summit.org.

Ancestralidade, ciência e o continuum do conhecimento em saúde

Ao abrir sua intervenção, João Paulo evocou a ideia de que “o futuro é ancestral”, destacando que essa afirmação não se refere a um retorno nostálgico ao passado, mas à necessidade de reconectar conhecimentos, comunidades e modos de vida que foram fragmentados por processos históricos de exclusão. A partir dessa perspectiva, a saúde e o bem-estar são compreendidos não como bens individuais ou mercadorias, nem apenas como ausência de doença, mas como estados de harmonia com a comunidade, o território e o ambiente.

Essa visão amplia o entendimento da MTCI como um sistema vivo de conhecimento, em constante diálogo com a biomedicina e com os contextos sociais, culturais e ecológicos em que está inserido. Ao reconhecer que diferentes formas de conhecer, cuidar e tratar coexistem, a fala reforçou que a diversidade epistemológica não é um obstáculo, mas uma condição para responder às necessidades reais das populações.

Nesse sentido, João Paulo chamou atenção para a falsa dicotomia entre conhecimento tradicional e conhecimento científico. Segundo ele, ambos fazem parte de um mesmo continuum, construído por observação, experiência, experimentação e reflexão ao longo de gerações. São linguagens e métodos distintos que buscam um propósito comum: compreender, cuidar e promover o bem-estar. O desafio, portanto, não é a assimilação ou apropriação dos saberes tradicionais, mas uma articulação respeitosa entre sistemas de conhecimento autênticos.

Tecnologia, Biblioteca Global da OMS e acesso responsável ao conhecimento

A tecnologia e a inovação também foram abordadas como ferramentas centrais para ampliar o acesso equitativo ao conhecimento em saúde, desde que utilizadas de forma ética, não exploratória e culturalmente sensível. Nesse contexto, João Paulo destacou a Biblioteca Global de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde como uma iniciativa estratégica para preservar conhecimentos ancestrais, apoiar sua aplicação segura e fortalecer a tomada de decisão em saúde. Mais do que um repositório digital, a biblioteca foi apresentada como uma plataforma global pluricêntrica, orientada à conexão entre diferentes sistemas de saber.

Desenvolvida sob a orientação do Centro Global de Medicina Tradicional da OMS e com desenvolvimento técnico da BIREME-OPAS/OMS, a biblioteca se alinha a uma visão de futuro em que o conhecimento em saúde não é hierarquizado de forma excludente, mas compartilhado de maneira responsável, respeitando a legitimidade cultural e científica de suas múltiplas origens.

Ao articular ancestralidade, ciência, tecnologia e políticas públicas, a fala de João Paulo Souza reforçou a importância de investir em sistemas diversos de conhecimento, incluir vozes indígenas e comunitárias e construir serviços de saúde que sejam não apenas disponíveis, mas também significativos para as populações que atendem. Nesse horizonte, o futuro da saúde global não se encontra apenas em novas tecnologias, mas também nos territórios, nos saberes e nas práticas que sustentam a vida há gerações.

Ministério da Saúde e CABSIN: mais brasileiros na Cúpula

O Brasil participou ativamente da programação do evento, com apresentação de trabalhos nas grandes plenárias e nas sessões paralelas. 

Vinculados ao Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN) – uma das mais importantes organizações brasileiras na área – estiveram na Índia o consultor da OMS no Brasil e fundador e vice-presidente do Consórcio, Dr. Ricardo Ghelman; a diretora do CABSIN e osteopata Ana Paula Ferreira; a pesquisadora e professora Mariana Cabral Schveitzer, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP); o professor Nelson Filice de Barros, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e o professor Marcelo Demarzo, da UNIFESP.

O Ministério da Saúde brasileiro também esteve presente no evento representado por Ilano Almeida Barreto e Silva, Secretário Adjunto da Secretária de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde (SAPS/MS), e por Daniel Amado, gestor no Núcleo Técnico de Gestão da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do Departamento de Prevenção e Promoção da Saúde/SAPS do Ministério da Saúde. Amado integra a mesa de convidados da Plenária “Medindo o progresso e traçando os próximos passos: padrões, dados e inteligência artificial responsável, do conhecimento ancestral à ação”.

Sobre o Second WHO Global Summit on Traditional Medicine

Realizado pela primeira vez em 2023, na Índia, o WHO Global Summit on Traditional Medicine reúne governos, cientistas, reguladores e representantes de povos tradicionais para debater políticas, segurança, regulação, pesquisa e inovação em MTCI. Em sua segunda edição, a cúpula aprofunda marcos globais de evidências, apresenta avanços como a WHO Traditional Medicine Global Library e impulsiona a Estratégia Global de MTCI 2025–2034, apoiando países a integrar práticas integrativas de forma segura, custo-efetiva e culturalmente adequada.

Para assistir: todas as sessões foram gravadas e estão disponíveis em: tm-summit.org