Revista Carta Capital destaca relevância da Saúde Integrativa

A inclusão da Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI) nos sistemas públicos de saúde recebeu recente destaque na Carta Capital, que evidenciou a valorização de saberes ancestrais e políticas de cuidado integral. A reportagem acompanhou o 3º Congresso Mundial de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI), realizado no Rio de Janeiro, que reuniu representantes de mais de 70 países. O evento buscou aproximar ciência, espiritualidade, culturas ancestrais e sistemas oficiais de saúde, refletindo a complexidade do cuidado contemporâneo.

O cenário global e o papel da OMS

Durante o congresso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou a Estratégia Global para a Medicina Tradicional 2025-2034, que defende a incorporação de práticas tradicionais e complementares aos serviços de saúde com base em pesquisa científica, desenvolvimento responsável e salvaguardas culturais. Dessa forma, o foco está direcionado tanto para a prevenção quanto para o tratamento de doenças crônicas não transmissíveis e transtornos mentais, desafios crescentes em todo o mundo. O evento foi organizado, entre outros, pelo Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN).

A realidade brasileira: avanços e desafios

No Brasil, o movimento de expansão das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) se reflete em números. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 9 milhões de pessoas acessaram esses procedimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024, um aumento de 83% em dois anos. Contudo, a matéria aponta um descompasso significativo: apesar da alta adesão popular, menos de 1% dos recursos globais de pesquisa em saúde é destinado a essa área, um déficit que limita o avanço de evidências robustas de segurança e eficácia.

Evidências científicas e a conexão com a natureza

Estudos apresentados no congresso reforçam a conexão entre saúde humana e planetária. Um levantamento recente, parte dos chamados “mapas de evidências” apoiados pelo Ministério da Saúde, revelou que viver próximo a áreas verdes aumenta a expectativa de vida e reduz a incidência de doenças crônicas. Além disso, a imersão na natureza demonstrou efeitos positivos quase imediatos sobre a saúde mental. Esses dados, que reúnem milhares de publicações, organizam o conhecimento científico disponível e identificam lacunas na pesquisa sobre práticas integrativas.

Programa Nacional de Medicinas Indígenas: um marco

Um dos pontos centrais da matéria foi o anúncio do Programa Nacional de Medicinas Indígenas, considerado o “coração” da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai/MS). Com lançamento previsto para o final de 2025, o programa visa reconhecer oficialmente o trabalho de parteiras, pajés, benzedores, rezadores e raizeiras, estabelecendo critérios de qualidade, segurança e respeito cultural. A proposta é integrar esses saberes ao SUS sem descaracterizá-los, valorizando práticas que, para os povos indígenas, são originárias e não alternativas.

Espiritualidade, cuidado e o futuro da saúde

O debate no congresso também abordou a interseção entre espiritualidade e cuidado, como nas práticas amazônicas que utilizam a ayahuasca. A discussão aponta para a necessidade de ampliar o conceito de saúde, incorporando bem-estar, prevenção e espiritualidade como pontes entre saberes ancestrais e práticas clínicas. O destaque na Carta Capital marca um passo importante para legitimar um diálogo histórico, reconhecendo que a saúde se constrói com ciência, cultura, território e memória, um tema reforçado pelo compromisso do Brasil na liderança dos BRICS para fortalecer a medicina tradicional.