O Protagonismo Feminino na Saúde e na Medicina Integrativa

A cobertura de temas de saúde raramente faz uma costura específica entre a atuação feminina e a Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa. Neste 8 de março, compartilhamos alguns dados que ajudam a situar essa presença: na força de trabalho em saúde, no uso de abordagens integrativas e na participação em espaços científicos.

No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 67% da força de trabalho global em saúde e assistência social é composta por mulheres. No Brasil, esse panorama aparece com clareza em áreas como a enfermagem, que sustenta o cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS). Dados divulgados pelo Ministério da Saúde, na primeira edição da Demografia da Enfermagem, apontam que cerca de 85% dos profissionais de enfermagem são mulheres e que 61,9% dos vínculos estão no setor público.

A Força da Enfermagem nas Práticas Integrativas

No campo das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), a presença feminina também se traduz em volume de atendimento registrado: uma decisão recente do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) cita que a enfermagem é responsável por cerca de um terço de todos os procedimentos de PICS na Atenção Primária.

Esse recorte importa porque a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC) se concretiza, em grande parte, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde o vínculo, a longitudinalidade, a educação em saúde e a coordenação do cuidado são determinantes para acesso e continuidade. Há estudos sobre a participação da enfermagem na oferta de práticas integrativas em diferentes formatos de cuidado, individuais e coletivos, como aponta artigo na Saúde em Debate (SciELO).

Perfil de Uso: Mulheres Buscam Mais o Cuidado Integrativo

Outro aspecto relevante é o padrão observado na ponta do cuidado, entre os usuários: pesquisas populacionais indicam maior uso de práticas integrativas e complementares por mulheres. No Brasil, análises com base na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019 apontam maior prevalência de uso de PICS entre mulheres, conforme artigo na Ciência & Saúde Coletiva (SciELO). Em países da América Latina, há achados semelhantes. No Chile, um estudo do Ministerio de Salud (MINSAL) concluiu que a MTCI é utilizada majoritariamente por mulheres. Num estudo populacional na Noruega, por exemplo, 33% dos participantes relataram uso dessas abordagens, com maior frequência entre mulheres do que entre homens (42% e 24%, respectivamente), segundo artigo em PubMed Central. Em comunicação e políticas públicas, esse tipo de evidência ajuda a compreender comportamentos de busca por cuidado, orientar o desenho de serviços e qualificar prioridades de pesquisa e implementação.

Mulheres na Ciência e a Produção de Evidências

Para o Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN), o dado sobre as usuárias reforça um ponto central: para que a MTCI seja ofertada com segurança e beneficie cada vez mais pessoas, é necessário investimento na produção de evidências científicas na área. Por isso, olhar para mulheres na ciência faz parte do mesmo quadro. No campo científico, ainda persistem desigualdades de gênero. A UNESCO aponta que, globalmente, as mulheres representam cerca de um terço do total de pesquisadores, proporção que avança de forma gradual. No Brasil, análises sobre grupos de pesquisa cadastrados sugerem um cenário mais equilibrado, com participação feminina em torno de 52% em 2023, segundo a Revista Pesquisa FAPESP, embora a distribuição por áreas e posições de liderança ainda varie.

Representatividade e Liderança Institucional

Quanto à atuação das mulheres em redes que se dedicam ao avanço da MTCI, vale citar o exemplo do CABSIN. Considerando os comitês do Consórcio, as mulheres representam 52,24% dos membros. Na diretoria, são cinco cadeiras, com duas ocupadas por mulheres. Há diferenças importantes entre áreas: em alguns comitês, a participação feminina é amplamente majoritária; em outros, ainda há espaço para avançar em equilíbrio e diversidade.

“Esse retrato é valioso porque permite um passo adiante, acompanhar a representatividade com clareza e traduzi-la em compromisso institucional, fortalecendo a participação feminina também nos espaços de coordenação, autoria científica e tomada de decisão, ao mesmo tempo em que o campo avança em rigor metodológico, segurança e relevância para o SUS”, destaca a diretora Ana Paula Ferreira.