Experiências bem-sucedidas do Brasil, México e Peru para o fortalecimento da promoção da saúde, da prevenção de doenças e do autocuidado a partir de abordagens integrativas e interculturais pautaram as discussões do webinar internacional Experiencias innovadoras para el fortalecimiento de la salud y el autocuidado desde las Medicinas Tradicionales, Complementarias e Integrativas (MTCI), realizado em 13 de maio com o apoio do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN).

A iniciativa foi uma promoção do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS) peruano para Medicina Tradicional e Complementar em articulação com a Rede MTCI Américas e o Seguro Social de Saúde EsSalud (Peru). O encontro foi transmitido ao vivo pelos canais da Rede MTCI Américas e do CABSIN no YouTube, e contou com a participação do fundador e vice-presidente do Consórcio, Ricardo Ghelman.

Integração das MTCI nos Sistemas de Saúde

A abertura foi conduzida pelo vice-ministro da Saúde do Peru, Henry Rebaza, que destacou a necessidade de ampliar a visão sobre saúde, defendendo a transição de modelos centrados no tratamento de doenças para abordagens que fortaleçam a prevenção e o autocuidado. Entre as propostas apresentadas, mencionou a criação de um Observatório Latino-Americano de Medicina Complementar e de um Índice de Autocuidado para medir a proteção da saúde.

Na sequência, representantes da OMS e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) apresentaram marcos estratégicos para a integração das MTCI nos sistemas de saúde. O diretor do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME-OPAS/OMS), João Paulo de Souza, destacou a importância do debate para o avanço da nova Estratégia Global de Medicina Tradicional da OMS 2025-2034, que propõe uma visão moderna, inclusiva e centrada nas pessoas organizada em quatro grandes objetivos: Evidência, Regulação, Implementação e Colaboração, no sentido da promoção do acesso seguro, efetivo e de qualidade da medicina tradicional e complementar nos sistemas de saúde.

Manjulaa Narasimhan, da OMS, apresentou a saúde como um “triângulo de oportunidade”, no qual autocuidado, MTCI e sistemas de saúde se fortalecem mutuamente, apontando para ganho de autonomia dos pacientes e redução de custo para o sistema de saúde com a adoção do autocuidado. Já Gustavo Rosell, da OPAS, destacou a Atenção Primária à Saúde (APS) como plataforma estratégica para essa integração, ressaltando a importância da implementação dos objetivos da Estratégia Global da OMS especialmente no que se refere à governança e trabalho intercultural.

Outro destaque da programação foi a apresentação do processo de sistematização conduzido pelo Centro Colaborador OMS no Peru. A iniciativa avaliou experiências regionais considerando critérios como impacto, inovação, sustentabilidade e interculturalidade. Após diferentes etapas de análise, incluindo buscas sistemáticas e manuais, foram selecionadas três experiências para apresentação: a Terapia Comunitária Integrativa (TCI), do Brasil; a Dieta da Milpa, do México; e o programa Prevenir, do Peru.

Segundo os organizadores, o processo também contribuiu para fortalecer a cooperação entre equipes de diferentes países da região, por meio de entrevistas, grupos focais e análises de fontes primárias e secundárias.

Brasil, México e Peru apresentam iniciativas em MTCI

A primeira experiência apresentada foi a Terapia Comunitária Integrativa (TCI), do Brasil, conduzida pelo fundador da metodologia, o médico psiquiatra Adalberto Barreto, e por Alberto de Paula, da Associação Brasileira de Terapia Comunitária Integrativa (Abratecom). A TCI surgiu há cerca de 40 anos numa comunidade de Fortaleza como resposta ao sofrimento coletivo que não encontrava solução em modelos exclusivamente clínicos.

A metodologia utiliza encontros em grupo baseados na escuta ativa, na valorização das experiências de vida e na construção de vínculos solidários. Entre os resultados apresentados, foi destacada sua relação custo-efetividade, estimada em aproximadamente US$ 1,50 por pessoa, cada sessão, além de sua presença em mais de 47 países e em 59 polos oficiais no Brasil. Também foi mencionada a adaptação da metodologia para o formato online durante a pandemia.

A experiência do México foi apresentada por Hernán José García Ramírez, que abordou a Dieta de la Milpa, modelo alimentar baseado em alimentos tradicionais mexicanos, como milho, feijão, abóbora e pimenta e uma resposta culturalmente alinhada ao aumento das doenças crônicas e ao chamado ambiente obesogênico. Ramírez destacou que o modelo passou a integrar diretrizes alimentares nacionais e que contribuiu para promover sistemas alimentares locais com participação das comunidades no desenvolvimento das políticas com grande impacto na promoção da saúde.

Já a experiência do Peru foi apresentada por Marta Villar López, responsável pelo programa Prevenir, anteriormente denominado Reforma de Vida. A iniciativa de e-Saúde foi desenvolvida para prevenir doenças crônicas não transmissíveis entre trabalhadores e está estruturada em três dimensões chamadas de “alimentações”: celestial, terrestre e humana.

Entre os resultados apresentados pela enfermeira Cintia Cruz Flores, destacam-se mais de 11.000 acordos estratégicos com empregadores, redução de 60% nos casos de polifarmácia e diminuição da carga de doenças metabólicas, que passaram de uma posição entre as cinco principais causas para posições entre a 12ª e a 15ª colocação. Segundo os dados apresentados, o programa foi ampliado para incluir ações de detecção precoce do câncer. Cintia tem especialização em Práticas Integrativas e Complementares e mestrado em Saúde Pública e Interculturalidade.

Debate destaca integração das MTCI nas políticas públicas

A programação incluiu ainda um painel sobre a integração das MTCI nos sistemas de saúde. Representando o Ministério da Saúde do Brasil, Natalia Oliveira da Silva destacou os 20 anos da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) e apresentou dados sobre o crescimento das práticas na Atenção Primária à Saúde. Segundo a representante, houve aumento de 122% das práticas integrativas entre 2022 e 2025, enquanto os registros de Terapia Comunitária Integrativa cresceram mais de 500% entre 2017 e 2025.

Miguel Ángel Herrera Albarrán, do Ministério da Saúde do México, ressaltou a importância da construção de políticas públicas junto às comunidades a quem elas se destinam, utilizando a Dieta da Milpa como exemplo de construção intercultural. Já Jaime Valderrama, da área de e-Saúde do Peru, defendeu a transição de modelos centrados na doença para abordagens focadas na promoção da saúde.

Cooperação Regional e Fortalecimento das Evidências

O webinar contou com a participação, como debatedor, do vice-presidente do CABSIN e consultor estratégico da OMS, Ricardo Ghelman, que destacou conexões entre as três experiências apresentadas, relacionando a Dieta da Milpa à “alimentação terrestre”, a Terapia Comunitária Integrativa à “alimentação humana”, e as intervenções baseadas na natureza à “alimentação celestial”. Também apresentou os Mapas de Evidências do CABSIN em parceria com a BIREME-OPAS/OMS, que sintetizam mais de 2.700 revisões sistemáticas para apoiar políticas públicas baseadas em evidências.

Ao final do encontro, Natalia Sofia Aldana Martinez, coordenadora da Rede MTCI Américas e da BVS MTCI, reforçou os principais pontos discutidos ao longo do webinar, destacando o papel das MTCI no fortalecimento dos sistemas de saúde, na promoção do autocuidado e na redução da carga de doenças, além dos desafios relacionados à produção de evidências, capacitação profissional e sustentabilidade por meio do financiamento.