“O futuro da inovação brasileira passa necessariamente pela capacidade de desenvolver modelos de bioeconomia inclusivos, sustentáveis e capazes de gerar impacto social, ambiental e econômico para todos.”

Fabiana dos Santos e Souza passa a integrar a diretoria do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN) no biênio 2026-2027, somando sua experiência acadêmica e técnica ao trabalho de fortalecimento científico e institucional da entidade. Sua chegada compõe uma diretoria ampliada, agora formada também por Adriana Nunes Wolffenbuttel e Marcelo Demarzo, que se somam a Caio Portella e Ricardo Ghelman, já diretores da instituição.

Doutora em Biotecnologia Vegetal pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Ecologia de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e especialista em Gestão da Inovação em Fitomedicamentos por Farmanguinhos/Fiocruz, ela reúne experiência em pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico. Foi professora de Projetos de Inovação e Empreendedorismo em Biotecnologia na UFRJ e de Pós-Graduação na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Atualmente, trabalha na gestão de projetos de saúde indígena na Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (VPAAPS/Fiocruz).

Ao longo da carreira, tem se dedicado a temas como biotecnologia vegetal, fitomedicamentos, inovação em saúde, biodiversidade, bioeconomia, conhecimento tradicional e medicina indígena, além de também lecionar em áreas ligadas à inovação, biotecnologia e à propriedade intelectual. Sua produção recente reforça esse campo de interesse ao discutir desafios e possibilidades para o desenvolvimento tecnológico de fitoterápicos no Brasil, especialmente a partir dos bioprodutos amazônicos.

A entrada na diretoria amplia, no CABSIN, a presença de um olhar voltado à articulação entre ciência, inovação e uso responsável da biodiversidade brasileira. Esse percurso também dialoga com debates estratégicos para o campo das Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas, como a transformação do conhecimento científico em soluções concretas, os caminhos regulatórios para o desenvolvimento de produtos e a valorização de saberes associados ao patrimônio genético.

Conheça um pouco mais sobre Fabiana dos Santos e Souza na entrevista concedida ao Consórcio:

O que significa, para você, integrar a diretoria do CABSIN neste momento da trajetória da instituição?

Integrar a diretoria nesse momento representa a oportunidade de contribuir de forma estratégica para o fortalecimento da saúde integrativa baseada em evidências no Brasil. Acompanho e participo das iniciativas do CABSIN há alguns anos, especialmente por meio do Comitê de Produtos Naturais, e considero que o Consórcio ocupa hoje um papel fundamental na articulação entre as áreas de pesquisa, políticas públicas e práticas de cuidado.

Minha expectativa é contribuir para ampliar o diálogo entre a ciência, os saberes tradicionais e a inovação, fortalecendo a cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos. Também pretendo apoiar a produção e a disseminação de evidências que orientem a tomada de decisão em saúde e favoreçam a atualização da farmacopéia brasileira, com a inclusão de espécies medicinais da nossa biodiversidade, principalmente espécies amazônicas, contribuindo para o desenvolvimento de uma bioeconomia nacional e inclusiva.

Na sua visão, quais são hoje as principais prioridades para ampliar a relevância científica e institucional das MTCI no Brasil?

A principal prioridade é aumentar a geração e a sistematização de evidências científicas e clínicas sobre efetividade, segurança e custo-efetividade das MTCI. Paralelamente, precisamos fortalecer a formação dos profissionais de saúde, ampliar a inserção dessas práticas nas redes de atenção e aproximar pesquisadores, gestores e sociedade.

Também considero fundamental a capacitação dos produtores de insumos vegetais para a área da saúde a partir de boas práticas, e a valorização dos conhecimentos tradicionais e da medicina indígena associados à biodiversidade brasileira, promovendo pesquisas éticas, participativas e alinhadas às necessidades do SUS com repartição de benefícios, como determina a Lei da Biodiversidade.

Sua trajetória reúne biotecnologia vegetal, inovação em saúde e fitomedicamentos. Essa combinação de áreas permite ter uma visão mais completa do “percurso inteiro”?

Sem dúvida. Ao longo da minha trajetória tive a oportunidade de atuar em diferentes etapas da cadeia de inovação: desde pesquisas relacionadas à biodiversidade amazônica e aos conhecimentos tradicionais, passando pela prospecção tecnológica, propriedade intelectual e desenvolvimento de fitoterápicos, até a transferência de tecnologia e na formulação de políticas públicas. Essa vivência me permite compreender os desafios e oportunidades existentes em cada etapa do processo e, principalmente, identificar caminhos para transformar conhecimento científico em soluções concretas para a sociedade e o sistema de saúde. Isso é o que pretendo fazer junto ao CABSIN.

Em seu trabalho mais recente, você retoma o potencial dos bioprodutos amazônicos. Na sua avaliação, qual é hoje o principal gargalo para que esse potencial seja melhor aproveitado no país?

O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta, mas ainda enfrenta dificuldades para converter esse patrimônio em inovação e desenvolvimento sustentável. O principal gargalo é a desconexão entre os diferentes elos da cadeia: produção da matéria-prima, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, ambiente regulatório, financiamento, produção e acesso ao mercado.

Temos conhecimento, biodiversidade e demanda para produtos da biodiversidade, mas ainda concentramos grande parte da produção em alimentos e commodities de baixo valor agregado. Precisamos fortalecer mecanismos que permitam transformar esses insumos em ativos biológicos de maior valor dentro do Brasil para que sejamos realmente inovadores. Precisamos também desenvolver tecnologias que possam ser integradas à cadeia de desenvolvimento e produção de medicamentos inovadores em escala. A produção precisa ocorrer de forma cooperativa, mas utilizar inteligência competitiva e inteligência artificial para acessarmos de forma efetiva essa parcela de mercado.

Também é necessário ampliar os investimentos na bioindústria e nas indústrias de medicamentos, com melhor infraestrutura tecnológica para produção de fitoterápicos e capacitação de prescritores, como médicos, dentistas, nutricionistas, enfermeiros, biomédicos, terapeutas, veterinários etc.

O marketing desempenha também um papel essencial nesse processo, ao fortalecer a percepção de segurança no uso desses produtos entre consumidores e profissionais prescritores, além de aumentar a confiança de empresários e agricultores para investir no setor.

Minha pesquisa de doutorado já apontava esse desafio em relação aos produtos amazônicos, mas hoje constato que é uma realidade para todo o território brasileiro. Temos plantas medicinais em diversos biomas ainda desconhecidas pela classe médica brasileira.

Ao longo da sua atuação, temas como patrimônio genético e conhecimento tradicional aparecem de forma recorrente. Poderia eleger um ponto desse debate que considera, nos dias de hoje, mais sensível ou mais mal compreendido?

Acredito que um dos aspectos mais sensíveis seja compreender que a proteção do conhecimento tradicional não é apenas uma questão jurídica ou regulatória. Trata-se também de reconhecer direitos, culturas e formas distintas de produção de conhecimento e que essas populações dão uma importante contribuição ambiental ao conservarem os biomas e os ecossistemas onde vivem.

Muitos ainda veem o conhecimento tradicional apenas como uma fonte de informação para a pesquisa científica, quando na realidade ele representa sistemas complexos de manejo, cuidado e relação com a natureza construídos ao longo de gerações, o que os indígenas denominam como “bem viver”, conceito também adotado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). O desafio é construir modelos de cooperação que promovam repartição justa de benefícios, reconhecimento dos detentores desses conhecimentos, geração de valor compartilhado e ampliação do uso desses saberes para benefício da saúde pública nacional.

Como a bioeconomia pode contribuir simultaneamente para a conservação da biodiversidade, o fortalecimento das comunidades tradicionais e a inovação em saúde?

Essa é uma agenda que conecta grande parte da minha trajetória profissional e acadêmica. Entendo que o futuro da inovação brasileira passa necessariamente pela capacidade de desenvolver modelos de bioeconomia inclusivos, sustentáveis e capazes de gerar impacto social, ambiental e econômico para todos.

Que contribuição você espera deixar como diretora, nesses dois anos?

Espero contribuir para ampliar a integração entre pesquisadores, instituições e formuladores de políticas públicas, fortalecendo o papel do CABSIN como referência nacional e internacional em saúde integrativa baseada em evidências. Considero que as práticas integrativas são um caminho para alavancar a bioeconomia nacional e a inovação em saúde, e o papel do CABSIN é central para estimular a pesquisa racional de novos insumos, criando novos protocolos e modelos de efetividade em pesquisa que contemplem a realidade brasileira.

Nesse sentido, as parcerias e oportunidades são bem-vindas para o desenvolvimento do país a partir de suas próprias riquezas. Estarei atenta a iniciativas articuladas desde a base da produção, incluindo indígenas, populações tradicionais, pequenos produtores, desde que estabeleçam boas práticas de manejo e produção sem agrotóxicos, até parcerias e indicações geográficas que nos permitam incluir novas matérias-primas como insumos farmacêuticos, a exemplo do guaraná.

Também gostaria de colaborar para aproximar ainda mais os temas relacionados à biodiversidade aos produtos naturais: plantas medicinais, medicina indígena, medicina ayurvédica, medicinas afrodiaspóricas e medicina tradicional chinesa.