Nova Diretoria: Marcelo Demarzo
Marcelo Demarzo: “É um momento em que o país e o mundo precisam de diálogo qualificado, rigor técnico e visão integradora”
Com atuação dedicada à pesquisa, à formação de profissionais e à implementação de intervenções baseadas em evidências – especialmente na interface entre atenção primária à saúde, promoção da saúde, saúde mental, autocuidado apoiado e mindfulness (prática de atenção plena no cotidiano) -, o médico Marcelo Demarzo passa a integrar a diretoria do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN) no biênio 2026-2027.
Sua chegada compõe uma diretoria ampliada da instituição, agora formada também por Adriana Nunes Wolffenbuttel e Fabiana dos Santos e Souza Frickmann, que se somam a Caio Portella e Ricardo Ghelman, já diretores da entidade.
Trajetória Acadêmica e Perspectivas
Professor associado (Livre-Docente) da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e fundador do Mente Aberta, Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde, Marcelo Demarzo desenvolve um trabalho voltado à articulação entre prática clínica, ensino e pesquisa. Médico pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em Patologia pela mesma universidade, é especialista em Medicina de Família e Comunidade e em Medicina Esportiva e do Exercício. Ao longo da carreira, firmou-se na área de mindfulness e saúde mental, com atuação acadêmica e científica no Brasil e no exterior. É também bolsista de produtividade em Pesquisa 1D do CNPq.
No CABSIN, Demarzo chega com a perspectiva de contribuir para o fortalecimento científico, institucional e estratégico da entidade, ampliando pontes entre produção de conhecimento, formação e implementação prática. Em sua entrevista ao Consórcio, destaca a importância de qualificar a tradução do conhecimento, fortalecer a pesquisa com métodos robustos e favorecer uma atuação cada vez mais relevante para o SUS, para a universidade e para a sociedade.
Confira:
Entrevista com Marcelo Demarzo
O que significa, para você, integrar a diretoria do CABSIN neste momento da trajetória da instituição?
Integrar a diretoria do CABSIN neste momento é, para mim, uma honra e também uma responsabilidade muito grande. O CABSIN vem se consolidando como referência institucional na articulação entre ciência, políticas públicas, formação profissional e práticas integrativas em saúde no Brasil e globalmente, sendo, por exemplo, parceiro estratégico da OMS no tema das MTCIs. Fazer parte da diretoria, neste contexto, significa contribuir para uma etapa de amadurecimento institucional, em que ampliaremos nossa credibilidade e autoridade científica na área, a capacidade de articulação com políticas públicas prioritárias, e o impacto social da instituição.
Vejo esse convite também como uma oportunidade de somar minha trajetória na pesquisa, na formação de profissionais e na implementação de intervenções baseadas em evidências, especialmente na interface entre atenção primária à saúde (APS), promoção da saúde, saúde mental, autocuidado apoiado e mindfulness. É um momento em que o país e o mundo precisam de diálogo qualificado, rigor técnico e visão integradora, e acredito que o CABSIN tem um papel estratégico nisso.
Na sua visão, quais são hoje as principais prioridades para ampliar a relevância científica e institucional das MTCI no Brasil?
A meu ver, há algumas prioridades centrais. A primeira é fortalecer a produção científica de qualidade, com métodos robustos, perguntas relevantes e maior capacidade de dialogar com os desafios reais do sistema de saúde brasileiro. Precisamos de mais estudos de efetividade, implementação, avaliação econômica e impacto em serviços, além de revisões de qualidade e sínteses acessíveis para gestores, profissionais e usuários dos serviços.
A segunda prioridade é qualificar a tradução do conhecimento. Não basta produzir evidência; é preciso transformá-la em linguagem útil para políticas públicas, formação, protocolos assistenciais e tomada de decisão. Isso inclui diálogo com o SUS, com universidades, com sociedades científicas e com instâncias regulatórias.
A terceira é ampliar a legitimidade institucional das MTCI por meio de uma postura ética, interdisciplinar e integradora, não dogmática. As MTCI ganham relevância quando são apresentadas com seriedade, sem perder seus fundamentos epistemológicos e filosóficos, mas com abertura ao escrutínio científico e com compromisso real com o cuidado centrado na pessoa; e não como oposição à biomedicina, mas como campo integrativo, crítico e colaborativo.
Ao longo da sua trajetória, qual experiência mais ajudou a consolidar a visão de que o mindfulness tem lugar relevante na formação e no cuidado em saúde?
A consolidação dessa visão veio menos de um momento isolado e mais do encontro entre prática clínica, ensino e pesquisa. Mas, se eu tivesse de destacar uma experiência, diria que foi observar, ao longo dos anos, o impacto do mindfulness em contextos reais de cuidado e formação, especialmente na atenção primária, na saúde mental e no desenvolvimento de profissionais de saúde.
Quando começamos a investigar e implementar intervenções baseadas em mindfulness no Brasil, ficou muito evidente que não se tratava apenas de uma técnica para redução de estresse, mas de uma abordagem com potencial para qualificar a abordagem clínica, a autorregulação atencional e emocional, a escuta, o cuidado de si e o cuidado do outro. Isso vale tanto para usuários quanto para profissionais e estudantes da saúde.
Esses efeitos têm se confirmado não apenas na minha experiência prática, pessoal (como praticante), e profissional (como instrutor e pesquisador), mas também em milhares de ensaios clínicos, estudos de implementação e efetividade, e processos formativos. As intervenções baseadas em mindfulness tem, assim, um lugar relevante e consistente na saúde contemporânea, desde que seja oferecido com rigor técnico e ético, contexto e responsabilidade social.
O que a construção do Programa de Promoção da Saúde baseada em Mindfulness (Mindfulness-Based Health Promotion) no contexto brasileiro ensinou sobre adaptar uma abordagem internacional à realidade do SUS?
A principal lição foi que adaptar não é simplificar de forma superficial nem apenas traduzir conteúdos. Adaptar é compreender profundamente o contexto em que uma abordagem será implementada. No caso do SUS, isso significa considerar desigualdades sociais, diversidade cultural, demandas assistenciais complexas, limitações de tempo e recursos, e a necessidade de intervenções que sejam acessíveis, seguras, custo-efetivas e escaláveis.
A construção do MBHP no Brasil mostrou que uma abordagem internacional pode ganhar ainda mais potência quando dialoga com os princípios da promoção da saúde, do autocuidado apoiado, da integralidade do cuidado e da realidade concreta dos serviços públicos. Isso exigiu linguagem adequada, foco em aplicabilidade, sensibilidade ao território e abertura para construir junto com profissionais, gestores e usuários.
Também aprendemos que a fidelidade mais importante não é apenas ao formato original, mas aos princípios essenciais da intervenção. Quando se preserva a integridade conceitual e, ao mesmo tempo, se respeita o contexto local, a adaptação deixa de ser uma perda e passa a ser um avanço.
Por que a compaixão passou a ocupar um lugar tão importante no seu trabalho e no debate sobre cuidado em saúde?
A compaixão, que também pode ser treinada de maneira laica e científica, sem perder suas raízes e contextos filosóficos, contemplativos e espirituais, traz uma dimensão ética, relacional e profundamente humana para o cuidado. Ela nos ajuda a reconhecer o “sofrimento” ou mal-estar inerente à condição humana com clareza, sem evasão, mas também com a motivação genuína de responder a esse sofrimento de forma sábia e responsável.
No campo da saúde, isso é decisivo. Profissionais trabalham sob pressão, pacientes vivem vulnerabilidades diversas, e os sistemas societários muitas vezes produzem desgaste, fragmentação e despersonalização. Falar de compaixão, nesse contexto, não é falar de idealismo ingênuo, mas de uma competência essencial para sustentar qualidade do cuidado centrado na pessoa, vínculo, segurança relacional e até proteção contra o adoecimento ocupacional.
A compaixão passou a ocupar esse lugar central no meu trabalho porque ela conecta ciência, cuidado e sentido e ética de vida. Hoje vejo que discutir saúde sem discutir compaixão é deixar de lado uma das bases mais importantes de qualquer prática clínica verdadeiramente humana.
Que contribuição você espera deixar como diretor, nesses dois anos?
Espero contribuir para o fortalecimento científico, institucional e estratégico do CABSIN. Em primeiro lugar, gostaria de ajudar a ampliar pontes entre produção científica, formação e implementação prática, favorecendo uma atuação cada vez mais relevante para o SUS, para a universidade e para a sociedade.
Também gostaria de colaborar para consolidar uma cultura institucional marcada por rigor técnico, diálogo interdisciplinar, responsabilidade ética e capacidade de indução de políticas públicas. O campo das MTCI precisa de instituições que saibam produzir confiança, organizar conhecimento e dialogar com diferentes setores sem perder consistência.
Por fim, espero deixar uma contribuição no fortalecimento de agendas ligadas à atenção primária à saúde (APS), promoção da saúde, saúde mental, autocuidado apoiado e cuidado centrado na pessoa, ajudando o CABSIN a ocupar, cada vez mais, um lugar de referência qualificada no Brasil e também em interlocução internacional.
Que mensagem gostaria de passar aos afiliados, pesquisadores e parceiros que acompanham o trabalho do CABSIN?
Minha mensagem é de reconhecimento, convite e compromisso. Reconhecimento pelo trabalho que tantas pessoas vêm construindo ao longo dos anos, muitas vezes com grande dedicação, seriedade e persistência, para fortalecer esse campo no Brasil. Nada se constrói sozinho.
Também é um convite para seguirmos ampliando redes, colaborando mais, qualificando a pesquisa e fortalecendo o diálogo com os serviços, com a formação e com as políticas públicas. O futuro das MTCI no Brasil dependerá da nossa capacidade de unir abertura, consistência científica, generosidade intelectual e compromisso com o bem comum.
E, acima de tudo, deixo um compromisso: o de trabalhar para que o CABSIN siga sendo um espaço de convergência, credibilidade e contribuição real para a saúde da população brasileira e mundial.


