Encefalite autoimune: estudo une diagnóstico precoce e abordagem integrativa
Um exame de imagem que mostra o funcionamento do cérebro e permite ver suas estruturas (tomografia PET/CT com ¹⁸F-FDG) pode ajudar no diagnóstico mais precoce da encefalite autoimune, uma desordem inflamatória grave no cérebro que ainda impõe grandes desafios clínicos. A união da imagem deste exame aos biomarcadores imunológicos aponta caminhos para diagnósticos mais antecipados e tratamentos cada vez mais personalizados, incluindo estratégias terapêuticas integrativas (multiprofissional e interdisciplinar), ampliando as possibilidades de cuidado integral do paciente.
Essas conclusões foram apresentadas na tese de doutorado “Encefalite autoimune: Correlação clínica com ¹⁸F-FDG PET/CT” (Autoimmune encephalitis: Clinical correlation with ¹⁸F-FDG PET/CT), defendida em fevereiro pelo médico e professor Maurício Baldissin, coordenador-adjunto do Comitê de Medicina Antroposófica do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN).
Sintomas da Doença Dificultam o Diagnóstico
No mundo, a incidência de encefalite — considerando causas infecciosas, autoimunes ou ainda não definidas — é estimada entre cinco e dez casos por 100 mil pessoas ao ano, podendo causar sequelas neurológicas importantes. A doença ocorre quando o sistema imunológico passa a produzir anticorpos que atacam proteínas presentes nos neurônios ou nas sinapses, que são as conexões entre as células nervosas. Esse processo inflamatório pode provocar sintomas neurológicos e psiquiátricos como perda de memória, confusão mental, convulsões, alterações de comportamento e dificuldades cognitivas.
Segundo os resultados do estudo, no entanto, a encefalite autoimune pode estar sendo subdiagnosticada em adultos de meia-idade. No grupo analisado pela pesquisa, a maioria dos casos ocorreu em pessoas entre 40 e 60 anos, indicando que a doença não é rara nesta faixa etária e pode passar despercebida nos primeiros estágios.
O diagnóstico costuma ser complexo porque os sintomas iniciais podem ser confundidos com transtornos psiquiátricos, infecções do sistema nervoso ou outras doenças neurológicas. Além disso, exames de imagem convencionais podem permanecer normais nas fases iniciais da doença, atrasando o início do tratamento.
Como a Imagem Molecular Pode Antecipar o Cuidado Integral
Um dos principais avanços investigados pela tese é o uso da imagem molecular por PET/CT com ¹⁸F-FDG. Diferentemente de exames tradicionais, que mostram principalmente a estrutura do cérebro, essa tecnologia permite observar o funcionamento cerebral em nível metabólico. O exame utiliza um radiofármaco, molécula semelhante à glicose marcada com uma pequena quantidade de material radioativo seguro. Como o cérebro consome grandes quantidades de glicose para funcionar, a substância é captada pelas células cerebrais, permitindo mapear a atividade metabólica de diferentes regiões do cérebro. Com isso, é possível detectar alterações no metabolismo cerebral mesmo quando outros exames ainda parecem normais.
Segundo Maurício Baldissin, essa capacidade de identificar precocemente mudanças funcionais pode transformar a forma como a doença é reconhecida na prática clínica e abrir espaço para intervenções terapêuticas mais amplas e integrativas: “Ao revelar alterações no funcionamento do cérebro, a imagem molecular pode ajudar a identificar a encefalite autoimune em fases que outros exames ainda não mostram mudanças estruturais”, explica.
Diagnóstico Precoce e Abordagens Terapêuticas
A tese também destaca que o diagnóstico da encefalite autoimune não depende de um único exame. Um dos avanços mais promissores está na integração entre diferentes ferramentas científicas. A identificação de anticorpos que atacam as proteínas neuronais (células nervosas), por exemplo, funciona como um biomarcador importante para confirmar o diagnóstico, identificar subtipos da doença e orientar o tratamento. Em alguns casos, esses anticorpos também podem indicar associação com tumores — condição conhecida como encefalite paraneoplásica — o que torna fundamental investigar a presença de câncer oculto, já que o tratamento da neoplasia pode ser decisivo para controlar a doença neurológica.
Nesse contexto, a combinação entre imagem metabólica por PET/CT, biomarcadores imunológicos e abordagens terapêuticas integrativas permite ampliar o cuidado ao paciente, articulando diagnóstico de alta precisão com estratégias clínicas que consideram a complexidade do processo inflamatório e a recuperação global da saúde.
“O avanço da neuroimunologia mostra que encefalites infecciosas e autoimunes frequentemente compartilham mecanismos inflamatórios complexos que afetam o cérebro. Quando novas ferramentas diagnósticas, como o PET/CT metabólico, passam a dialogar com biomarcadores imunológicos e abordagens terapêuticas integrativas, estamos diante de uma mudança de paradigma e da possibilidade de um cuidado mais preciso, individualizado e abrangente”, afirma Baldissin.
Ciência, Ética e Princípios Ecológicos
Outro aspecto destacado pela pesquisa é o compromisso com princípios éticos e ecológicos na investigação científica. O estudo foi realizado diretamente com pacientes, sem utilização de experimentação animal, refletindo condições reais da doença em seres humanos. A técnica também é considerada segura, pois utiliza doses muito baixas de radiação e o radiofármaco é rapidamente eliminado do organismo, sem acúmulo nos tecidos. Para o pesquisador, inovações como as imagens moleculares demonstram que a medicina pode avançar com responsabilidade, combinando ciência de alta precisão, métodos diagnósticos seguros e princípios ecológicos para promover a saúde humana.
“Ao concluir este trabalho, vislumbro perspectivas mais claras: se a clínica nos revela o sofrimento, a compreensão do metabolismo cerebral nos aproxima dos mecanismos de seu alívio. É nessa convergência entre a experiência humana dos sintomas, dos achados laboratoriais e da imagem funcional que ampliamos a compreensão da encefalite autoimune, aproximando diagnóstico, fisiopatologia e decisão terapêutica de forma mais precisa, integrada e responsável”, diz Baldissin. E conclui: “Quando ciência e clínica se articulam de maneira harmônica, o conhecimento transcende a descrição dos fenômenos e reafirma seu propósito maior: contribuir para a evolução do cuidado e da própria compreensão do ser humano”.
Conheça o Pesquisador
Maurício Baldissin é médico neurocirurgião, mestre em Neurologia e doutor em Medicina Nuclear pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua pesquisa de doutorado integra iniciativas do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital de Clínicas da Unicamp, do programa CancerThera e do Instituto Brasileiro de Neurociências e Neurotecnologia (BRAINN), centro de pesquisa apoiado pela FAPESP. Baldissin também é certificado em Medicina Antroposófica pela Medical Section at the Goetheanum – General Anthroposophical Society, na Suíça, onde atua como professor e membro do conselho de pesquisa.
Trajetória e Atuação
No CABSIN, exerce a função de coordenador-adjunto do Comitê de Medicina Antroposófica, contribuindo para o desenvolvimento científico e a difusão de abordagens integrativas em saúde. Com ampla atuação acadêmica e clínica, também é curador do programa IdeiaSUS, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), professor colaborador e preceptor de residência na Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ), além de diretor da Clínica de Neurodiagnose & Neuroterapêutica, onde desenvolve práticas que integram medicina convencional e terapias integrativas.
Autor do livro Percepções Humanas: Antroposofia e Neurociências (2014), publicado também em países da América Latina e na Espanha, possui extensa produção acadêmica e participação em instituições científicas internacionais nas áreas de neurologia e neurocirurgia, incluindo a World Federation of Neurosurgical Societies (WFNS) e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). Sua trajetória reúne pesquisa, ensino e assistência clínica voltadas ao avanço da neurociência e ao desenvolvimento de modelos de cuidado que integrem ciência biomédica e abordagens terapêuticas integrativas.


