CABSIN Assessora Organização Oeste-Africana de Saúde

Convidado pela Organização Oeste-Africana de Saúde (West African Health Organization – WAHO) para colaborar como entidade assessora técnica externa, o Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN), na presença de seu diretor-presidente, Caio Portella, participou da “Reunião de Validação das Orientações Regionais para Promoção e Regulação da Medicina Tradicional nos Estados-Membros da Comunidade Econômica da África Ocidental” (CEDEAO). O encontro aconteceu entre os dias 21 e 23 de janeiro de 2026, em Cotonou, na República do Benin.

O convite fundamenta-se no Memorando de Entendimento firmado entre o CABSIN e a WAHO, durante o 3o Congresso Mundial de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI), no Rio de Janeiro. O acordo estabelece cooperação técnico-científica estratégica de longo prazo entre as duas instituições, com foco no fortalecimento de capacidades em Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI) na região da CEDEAO.

Bases da Cooperação Técnico-Científica

O memorando também reconhece a expertise singular do CABSIN na sistematização científica de conhecimentos tradicionais e na institucionalização de práticas integrativas em sistemas públicos de saúde, experiências consideradas fundamentais para o objetivo estratégico da reunião: construir bases para a harmonização da Medicina Tradicional Africana como sistema de conhecimento unificado e globalmente reconhecido, seguindo trajetórias como as da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e do Ayurveda.

No CABSIN, a Medicina Africana tem uma equipe de experts que compõem, desde 2025, o Comitê de Medicina Tradicional Africana e Afro-Diaspórica. São pesquisadores de todo o Brasil que tiveram a oportunidade de se encontrar com a delegação da WAHO no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em outubro do ano passado, numa das atividades pré-Congresso Mundial, para uma reunião de estudo sobre as plantas brasileiras de matriz africana.

Visão Estratégica: Da Regulação à Harmonização Continental

O encontro em Cotonou transcende a regulamentação técnica convencional. Os Estados-membros da CEDEAO buscam criar condições para que, no futuro, seja possível falar em Medicina Africana como um corpus de conhecimento sistematizado, validado e reconhecido internacionalmente – não como folclore ou prática marginal, mas como sistema médico integral, com epistemologia própria, farmacopeia documentada e base empírica secular.

“A China conseguiu sistematizar, padronizar e projetar globalmente a MTC. A Índia fez o mesmo com o Ayurveda, reconhecido pela OMS e praticado em todo o mundo. A África possui riqueza de conhecimento tradicional equivalente ou superior, mas permanece fragmentada em centenas de sistemas locais. Esta reunião representa um passo fundamental na construção de uma identidade médica pan-africana”, ressaltou Caio Portella.

O diretor-geral da WAHO, Dr. Melchior Athanase J. C. Aissi, reforçou essa visão ao declarar que o objetivo é construir uma medicina harmonizada entre os países do território, reunindo as melhores práticas e recursos para fundar um sistema de Medicina Africana.

Brasil: Farmacopeia Viva de Origem Africana

A convocação do CABSIN pela WAHO possui ainda significado estratégico singular. O Brasil preservou, ao longo de quatro séculos de diáspora africana, conhecimentos tradicionais das nações jeje-nagô (iorubá e fon) que, transplantados e ressignificados em território brasileiro, se desenvolveram em sistemas afro-brasileiros com notável sofisticação epistemológica.

Pesquisas acadêmicas brasileiras documentam sistemas complexos de classificação de vegetais medicinais baseados na cosmologia jeje-nagô, nos quais as plantas são categorizadas pelos quatro elementos naturais (água, terra, fogo e ar) e associadas a divindades específicas (orixás). Esse conhecimento farmacológico, preservado em comunidades-terreiro de candomblé, mantém viva uma farmacopeia de origem africana com centenas de espécies vegetais de uso terapêutico comprovado.

Conhecimento Ancestral Preservado na Diáspora

Estudos como “Água e ancestralidade jeje-nagô: possibilidade de existências” (Mandarino & Gomberg, 2009) documentam como vastas farmacopeias com plantas de comprovada eficácia terapêutica para a saúde feminina, afecções urinárias, regulação menstrual e fertilidade estão associadas a divindades femininas relacionadas às águas – Oxum e Iemanjá. Conhecimentos que se originaram na África, foram preservados no Brasil por meio da diáspora, e agora podem contribuir para a reconstrução de sistemas médicos africanos.

A apresentação feita pelo presidente do CABSIN mostrou como a experiência brasileira oferece um modelo único de institucionalização do conhecimento tradicional que preserva bases culturais e epistemológicas. Segundo Portella, este é um elemento fundamental para uma harmonização africana que não busca mera “padronização técnica”, mas um sistema que respeite a diversidade cultural, mantendo coerência científica.

Comitê de Medicina Tradicional Africana e Afro-Diaspórica

O CABSIN também apresentou no encontro em Benin o seu Comitê de Medicina Tradicional Africana e Afro-Diaspórica, composto por 18 pesquisadores vinculados à Fiocruz, UFRJ, UFBA, UESC, Embrapa e outras instituições brasileiras, como instrumento de cooperação específica sobre conhecimentos preservados na diáspora africana.

O comitê integra pesquisadores que atuam em comunidades-terreiro de candomblé, umbanda, congadas e outras expressões afro-brasileiras, trabalhando na documentação de diversos saberes: farmacopeia afro-brasileira de origem jeje-nagô (iorubá/fon), banto e outros grupos étnicos; sistemas de classificação de plantas medicinais baseados em cosmologias africanas; práticas terapêuticas preservadas em comunidades tradicionais de matriz africana; conhecimento sobre divindades associadas à cura e à saúde (Ossaim, Oxum, Iemanjá, Nanã, entre outras) e rituais propiciatórios de saúde e bem-estar.

Reconstruindo Pontes Ancestrais

“Existe na diáspora brasileira um acervo imenso de conhecimento farmacológico africano preservado por quatro séculos em condições adversas. Comunidades-terreiro mantiveram vivos não apenas nomes de plantas, mas sistemas inteiros de classificação, preparação e uso terapêutico fundamentados em cosmologias africanas. Este conhecimento pertence à África e deve ser disponibilizado para os processos de reconstrução e harmonização da Medicina Africana”, afirmou o diretor-presidente do CABSIN.

Acordo com EWE-MEDJI Fortalece Cooperação em Naturopatia

Durante a passagem pelo continente africano, Caio Portella também realizou uma visita de intercâmbio ao Centro Politécnico EWE-MEDJI, sediado em Tori-Bossito, no Benin. A visita marcou o início efetivo da implementação do acordo de cooperação firmado entre as duas instituições.

O Centro Politécnico EWE-MEDJI é a primeira escola técnica para treinamento profissional em naturopatia, educação nutricional, fitoterapia e homeopatia na África Ocidental francófona. Membro educacional da Federação Mundial de Naturopatia, o EWE-MEDJI forma não apenas profissionais de medicina natural, mas também paramédicos e técnicos especializados em expressões culturais associadas às plantas.

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