Dr. Marcelo Demarzo: “Integrando Mindfulness na prática médica diária”

A incorporação estruturada do mindfulness à prática médica cotidiana, associada a evidências robustas de efetividade clínica, impacto positivo na saúde mental e potencial de redução de custos vem posicionando essa abordagem contemplativa como estratégia relevante para os sistemas públicos de saúde.

Esses achados fundamentam o estudo “Integrando Mindfulness na prática médica diária”, que será apresentado pelo Dr. Marcelo Demarzo na Segunda Cúpula Global de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde (Second WHO Global Traditional Medicine Summit – GTMS), de 17 a 19 de dezembro de 2025, em Nova Délhi, Índia. Demarzo é professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade federal de São Paulo (EPM/UNIFESP) e membro do Comitê de Saúde Mental e Espiritualidade do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN).

Mindfulness como Habilidade Clínica e Resposta a Desafios Globais

O trabalho dialoga diretamente com os desafios enfrentados globalmente pelos sistemas de saúde, como a crise de saúde mental, o burnout entre profissionais, a fragmentação do cuidado e a crescente medicalização. Ao propor o mindfulness como uma habilidade clínica treinável e integrada aos fluxos diários de trabalho, o estudo apresenta uma abordagem inovadora, alinhada às diretrizes da OMS para promoção da saúde, fortalecimento da autonomia e cuidado centrado na pessoa.

Equidade e Sustentabilidade: Mindfulness como Psicotecnologia

A Cúpula aprofunda a implementação da Estratégia Global de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde 2025–2034 (WHO Traditional Medicine Strategy), com ênfase em inovação, equidade e sustentabilidade. Nesse contexto, a apresentação do Dr. Marcelo Demarzo destaca o Mindfulness para além de intervenções individuais pontuais, defendendo modelos grupais e formatos online ou híbridos, capazes de beneficiar simultaneamente profissionais de saúde, pacientes e comunidades – uma psicotecnologia baseada em evidências, definida no estudo como o treinamento do “músculo da consciência”.

A Experiência Brasileira no Sistema Único de Saúde (SUS)

Um dos pilares da apresentação é o Programa de promoção da saúde baseado em Mindfulness (Mindfulness Based Health Promotion – MBHP), desenvolvido a partir de 2009 com forte adaptação cultural ao contexto brasileiro. Estruturado para atuação dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), ele prioriza equidade, acesso e fortalecimento da autoeficácia. Essa experiência posiciona o Brasil como referência do Sul Global na implementação de práticas contemplativas alinhadas às prioridades da Organização Mundial da Saúde.

“Integrar o Mindfulness à prática médica cotidiana não significa adicionar mais uma tarefa à rotina dos profissionais de saúde, mas qualificar a forma como cuidamos e nos relacionamos no contexto clínico. Quando treinamos atenção, presença e compaixão de maneira estruturada e baseada em evidências, fortalecemos simultaneamente o bem-estar dos profissionais, a autonomia dos pacientes e a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Essa é uma contribuição concreta que o mindfulness pode oferecer à saúde pública”, afirma o Dr. Marcelo Demarzo.

Evidências Científicas e Custo-Efetividade

As evidências científicas reunidas no estudo demonstram benefícios do treinamento em mindfulness no cuidado de condições crônicas, incluindo melhora de comportamentos alimentares, redução de episódios de compulsão alimentar e impactos positivos na saúde mental. Avaliações econômicas internacionais citadas indicam que intervenções baseadas em mindfulness, como o Programa de redução de estresse baseado em Mindfulness (Mindfulness Based Stress Reduction – MBSR) e a Terapia cognitiva baseada em Mindfulness (Mindfulness Based Cognitive Therapy – MBCT), podem ser mais custo-efetivas do que o cuidado usual, gerando economia financeira e ganhos em qualidade de vida.

Integração à Prática Clínica e Impacto em Políticas Públicas

Outro destaque do trabalho é a ênfase na integração do mindfulness aos fluxos reais da prática em saúde. Segundo o estudo, os melhores resultados são observados quando as intervenções estão incorporadas ao cotidiano institucional, respeitando contextos culturais e organizacionais. Esse modelo favorece a coesão social e o cuidado comunitário, aspectos considerados estratégicos pela OMS para o fortalecimento dos sistemas de saúde.

Perfil do Pesquisador

Professor da Escola Paulista de Medicina, Dr. Marcelo Demarzo é médico formado pela Universidade de São Paulo (USP) e realizou pós-doutorado em Mindfulness e Saúde pela Universidad de Zaragoza, na Espanha. Atua como professor, pesquisador e vice-coordenador do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, nos níveis de mestrado e doutorado, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Instrutor de treinamentos laicos e científicos de mindfulness e compaixão e coordenador do Centro Mente Aberta, foi pioneiro na difusão ampla do mindfulness no Brasil, desenvolvendo o protocolo MBHP, que expande o conceito da prática para a prevenção e a promoção da saúde.

Contribuições e Iniciativas Nacionais e Internacionais

É membro honorário do Advisory Board Committee do ACCESS MBCT da Universidade de Oxford e fundador da Mindfulness Brasil, iniciativa que promove a prática e o desenvolvimento profissional no país a partir do único método brasileiro, o MBHP, além do método desenvolvido na Universidade de Oxford, o MBCT (Mindfulness Based Cognitive Therapy for Depression).

Autor de diversos livros e estudos científicos sobre Mindfulness, bem-estar e saúde, mais recentemente aprofundou seus estudos no campo da compaixão, fundamentados em subsistemas neurobiológicos centrais do funcionamento humano, criando o Programa de compaixão baseada nos estilos de apego (Attachment Based Compassion Therapy – ABCT), em parceria com o psiquiatra Javier García Campayo, da Universidad de Zaragoza, na Espanha.

Ministério da Saúde e BIREME: mais brasileiros na Cúpula

O Brasil participa ativamente da programação do evento, com apresentação de trabalhos nas grandes plenárias e nas sessões paralelas.

Vinculados ao Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN) – uma das mais importantes organizações brasileiras na área – estão na Índia o consultor da OMS no Brasil e fundador e vice-presidente do Consórcio, Dr. Ricardo Ghelman; a diretora do CABSIN e osteopata Ana Paula Ferreira; a pesquisadora e professora Mariana Cabral Schveitzer, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP); e o professor Nelson Filice de Barros, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O Ministério da Saúde brasileiro também está presente no evento representado por Ilano Almeida Barreto e Silva, Secretário Adjunto da Secretária de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde (SAPS/MS), e por Daniel Amado, coordenador da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) junto à SAPS/MS. Amado integra a mesa de convidados da Plenária “Medindo o progresso e traçando os próximos passos: padrões, dados e inteligência artificial responsável, do conhecimento ancestral à ação”.

Outro brasileiro na II Cúpula Global é João Paulo Souza, diretor do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME-OPAS/OMS), um dos painelistas da sessão “Medicina Tradicional e a continuidade do conhecimento em saúde”.  A BIREME é parceira estratégica da OMS em iniciativas de organização, disseminação e acesso à informação científica em saúde.

Vozes do Brasil no Second WHO Global Summit on Traditional Medicine

  • Tema: Integrando Mindfulness na prática médica e nos sistemas de saúde
  • (Sessão Paralela 2.E: Impact of meditation on health – restoring balance from individual to social and ecological well-being)
  • Painelista: Prof. Dr. Marcelo Demarzo (EPM/Unifesp e CABSIN)
  • Dia: 18/12
  • Horário: 10h45 –12:00 (Índia)

Para assistir: todas as sessões serão gravadas e estarão disponíveis ao final de cada dia da Global Summit em: tm-summit.org

Sobre o Second WHO Global Summit on Traditional Medicine

Realizado pela primeira vez em 2023, na Índia, o WHO Global Summit on Traditional Medicine reúne governos, cientistas, reguladores e representantes de povos tradicionais para debater políticas, segurança, regulação, pesquisa e inovação em MTCI. Em sua segunda edição, a cúpula aprofunda marcos globais de evidências, apresenta avanços como a WHO Traditional Medicine Global Library e impulsiona a Estratégia Global de MTCI 2025–2034, apoiando países a integrar práticas integrativas de forma segura, custo-efetiva e culturalmente adequada.