A Ameaça Global da Resistência Antimicrobiana
No mês em que se celebram o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos (5 de maio) e o Dia Nacional do Controle de Infecção Hospitalar (15 de maio), o Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIN) chama atenção para uma das maiores ameaças à saúde pública global: a resistência antimicrobiana (RAM).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição cresceu mais de 40% entre 2018 e 2023, provocando uma média de 1 milhão de mortes anuais. O uso indevido de antibióticos, a automedicação e a interrupção precoce dos tratamentos impulsionam esse cenário, tornando infecções comuns cada vez mais difíceis de tratar e consolidando uma “pandemia silenciosa” em escala global.
No Brasil, a identificação de bactérias resistentes a múltiplos medicamentos também tem preocupado autoridades sanitárias e especialistas em saúde pública. A disseminação dessas chamadas “superbactérias” pode tornar infecções como pneumonia, infecção urinária e doenças gastrointestinais cada vez mais difíceis de tratar.
Mapa de Evidências sobre Intervenções Naturopáticas
O CABSIN participa do desenvolvimento do Mapa de Evidências sobre Intervenções Naturopáticas para a Resistência Antimicrobiana (Antimicrobial Resistance Map – AMR), uma iniciativa da Federação Mundial de Naturopatia (Word Naturopathic Federation – WNF) em parceria com o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME- OPAS/OMS).
A proposta do mapa é identificar recursos naturais, práticas integrativas e protocolos terapêuticos que possam contribuir para o enfrentamento da resistência antimicrobiana dentro do cuidado naturopático. Entre os objetivos estão o fortalecimento do sistema imunológico, a melhora da resposta do organismo às infecções e a redução do uso desnecessário de antibióticos por meio de intervenções preventivas e mudanças no estilo de vida. A ideia é estruturar uma ampla grade de intervenções complexas que possam apoiar tanto a prevenção quanto o uso racional de antimicrobianos.
Fases do Mapeamento e Próximos Passos
Até o momento, o AMR já identificou mais de 500 revisões sistemáticas que estão sendo compiladas e analisadas por uma equipe internacional de pesquisadores de cinco países: Austrália, Estados Unidos, Canadá, Brasil e Alemanha. A “Fase 3” do projeto envolveu a triagem detalhada de 1.100 artigos em texto completo integrantes daquelas revisões. Agora, o mapeamento está na “Fase 4”, dedicada à extração de dados e avaliação da qualidade metodológica das evidências científicas pelo CABSIN, enquanto a BIREME atua na parametrização e publicação dos dados.
As próximas fases incluem a avaliação metodológica AMSTAR, a compilação do Mapa de Evidências e, posteriormente, sua publicação oficial. A expectativa das instituições envolvidas é concluir o projeto até o final de 2026. Uma versão parcial do estudo foi apresentada no 3º Congresso Mundial de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (3rd WCTCIM), no Rio de Janeiro, em outubro de 2025.
Além de esclarecer e validar a grande quantidade de pesquisas relacionadas à prevenção e ao tratamento da resistência antimicrobiana por meio de terapias naturais e produtos naturais, o Mapa de Evidências sobre Intervenções Naturopáticas para a Resistência Antimicrobiana contribuirá para os recursos educacionais disponibilizados pela WNF.
Medicina Integrativa e Fortalecimento das Defesas Naturais
Para o presidente do CABSIN e da WNF, Caio Portella, a resistência antimicrobiana exige uma abordagem mais ampla e sistêmica sobre saúde e imunidade. Segundo ele, a Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa (MTCI) propõe estratégias voltadas ao fortalecimento das defesas naturais do organismo e ao equilíbrio do microbioma humano, reduzindo a necessidade do uso excessivo de antibióticos.
“Durante muito tempo, a lógica predominante foi a eliminação completa dos micro-organismos, como se toda bactéria fosse necessariamente um problema. Hoje, sabemos que o organismo humano convive em equilíbrio com milhões de bactérias que exercem funções fundamentais para a digestão, absorção de nutrientes e funcionamento do sistema imunológico”, afirma.
Portella defende ainda a visão mais dinâmica da MTCI sobre os sistemas biológicos e a resposta imunológica. Segundo ele, diferente de abordagens centradas exclusivamente no isolamento do agente infeccioso, é preciso ampliar a capacidade adaptativa do organismo diante das infecções. “O pressuposto da medicina convencional é o isolamento, mas todo sistema vivo é um sistema aberto. Na MTCI, a proposta é fazer o caminho contrário, adotando protocolos para fortalecer e dar ao nosso sistema a capacidade e inteligência para reagir por si só. E isso vai de encontro ao protocolo convencional de isolamento e a ideia de que esse sistema é estático ao ser orientado por características genéticas”, ressalta.
Abrangência do Projeto e Dados Globais
O diretor do CABSIN destaca ainda que o Mapa de Evidências sobre Resistência Antimicrobiana poderá se tornar um dos projetos mais abrangentes já desenvolvidos pelo consórcio. “Como a resistência antimicrobiana é uma condição complexa, estimamos que este será um dos mapas mais amplos já elaborados pelos nossos pesquisadores, reunindo estudos sobre acupuntura, medicina chinesa, plantas medicinais, bioativos marinhos, probióticos, mudanças de hábitos, entre outros”, explica.
Estudo publicado na revista científica The Lancet em setembro de 2024, realizado pelo grupo de pesquisa Global Research on Antimicrobial Resistance (GRAM) Project, aponta que a resistência bacteriana já provoca cerca de 1,3 milhão de mortes diretas por ano. Caso medidas urgentes não sejam adotadas, projeções do mesmo estudo indicam que o problema poderá ultrapassar 39 milhões de mortes acumuladas até 2050.
A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas sofrem mutações ao longo do tempo e deixam de responder aos medicamentos utilizados para combatê-los. Como consequência, tratamentos tornam-se ineficazes e infecções antes consideradas simples passam a representar riscos elevados.
Impactos e Dados Globais da OMS
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alerta que a RAM compromete a eficácia de medicamentos essenciais utilizados contra bactérias, fungos, vírus e parasitas. O problema afeta diretamente procedimentos médicos como cirurgias, transplantes, quimioterapia e tratamentos intensivos que dependem de antibióticos eficazes.
Dados divulgados pela OMS em outubro de 2025, a partir do Sistema Mundial de Vigilância da Resistência Antimicrobiana (GLASS), apontam crescimento anual entre 5% e 15% da resistência a antibióticos essenciais em diferentes regiões do planeta. Segundo o levantamento, uma em cada seis infecções bacterianas notificadas já apresenta resistência aos tratamentos disponíveis.
Os níveis mais elevados de resistência a antibióticos estão concentrados em partes do sul da Ásia e do Oriente Médio, onde aproximadamente uma em cada três infecções relatadas é resistente. Na África, a resistência aos tratamentos de primeira escolha para alguns tipos de bactérias presentes em infecções da corrente sanguínea já ultrapassa 70%, aumentando os riscos de sepse, falência de órgãos e morte.
Fatores de Risco e Conscientização
Entre os principais fatores associados ao avanço da resistência estão a automedicação, o uso inadequado de antibióticos, a utilização de antimicrobianos para infecções virais, a interrupção precoce dos tratamentos, o compartilhamento de medicamentos e o descarte inadequado de remédios. Essas práticas não apenas prejudicam o tratamento individual, mas também favorecem a disseminação de microrganismos resistentes na comunidade.
Diante desse cenário, organizações internacionais e autoridades de saúde têm reforçado campanhas de conscientização sobre o uso racional de antimicrobianos, destacando a importância de utilizar esses medicamentos apenas com prescrição médica e seguindo corretamente dose, horário e duração do tratamento.


